O Romance de Estréia de Uma Psicóloga Israelense – Resenha: “Uma Noite, Markovitch”

“Iaakov Markovitch pensou na mão de Zeev Feinberg estendida sobre o ombro de sua mulher. Pensou na eterna recusa no rosto de Bela. Pensou no modo maravilhoso, milagroso com que o ‘não’ podia amadurecer e se transformar em ‘sim’. Por fim, parou de pensar e começou a falar”

 

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Todo amante de livros gosta de passear pelas estantes das livrarias na esperança de encontrar algum tesouro escondido. Foi o caso de Uma Noite, Markovitch. A arte da capa é incrível e chamou minha atenção desde o início. O fato de ter sido escrito por uma autora israelense, judia e mestra em psicologia, Ayelet Gundar-Goshen, só o tornou mais fascinante

A obra é contemporânea, foi originalmente publicada em 2012. Eu pude ler a tradução de Paulo Geiger, publicada recentemente (março de 2018) pela editora Todavia. Apesar de recente, Uma noite, Markovitch é um romance de 400 páginas ambientado no período da 2ª Guerra Mundial, abordando principalmente a formação do Estado de Israel. Com um “pano de fundo” cultural e ponto de vista judaicos, a relação das personagens com a “Terra prometida” e com a Europa é um das questões principais do romance. Entretanto, é preciso dizer que o tema fundamental da narrativa é o Amor.

A história começa com a formação da amizade entre Iaakov Markovitch e Zeev Feinberg. O primeiro é um “glorioso meio-termo”, um homem solitário, sem nada que o destaque. Muito pelo contrário, sempre passou despercebido por todos. Já Zeev é a masculinidade idealizada: forte, conquistador e confiante; todos o admiram. Juntos eles partem em uma missão para ajudar jovens judias a sair da Europa, continente ameaçado pelo nazismo. Através de casamentos arranjados a imigração é facilitada, de maneira que Iaakov e Zeev se casam com mulheres que conhecem horas antes da cerimônia. Durante a viagem, Zeev Feinberg só consegue pensar em Sônia, a mulher que realmente ama e que permanece na Palestina. Iaakov, porém, se vê casado com Bela Zeigerman, dona de uma beleza inacreditável, e assim começa uma obsessão que perdurará por toda a sua vida.

A partir daí, a narrativa se intensifica, na medida em que as relações entre as personagens se tornam mais complexas. O que a princípio parece um roteiro de uma comédia-romântica (dois amigos partem numa aventura muito louca) se desenvolve em uma narrativa profunda, marcada pela guerra, pela dor, rejeição e abandono, mas também com momentos únicos de paixão, resiliência e afeto.  Como foi dito antes, o tema principal desse romance é o amor em suas diversas formas. O amor entre um casal, entre os pais e seus filhos, a amizade e o amor por um povo. Mais precisamente, esse livro se trata da busca pelo amor e o que decorre de sua ausência. Assim como acontece na vida fora da ficção, as personagens estão sempre buscando amar e ser amadas. Algumas acham que encontraram o amor, algumas o encontram e o perdem sucessivamente, outras nunca o alcançam. Porém, todas as personagens parecem confusas sobre suas jornadas, sem saber o caminho nem o destino. As personagens só conhecem, como só poderiam conhecer, suas necessidades.

Acredito que Ayelet Gundar-Goshen captura algo de muito humano nesse romance. Penso que muitos (se não todo mundo) estão à procura de amar e serem amados, em todos os sentidos possíveis. Mesmo quando amamos, é difícil se sentir completo com esse sentimento por muito tempo. Não por questão de ganância ou caráter, mas por falta de atenção. Coisas acontecem na vida que mudam nosso foco e nublam nossos sentidos, de maneira que não mais percebemos, recebemos ou oferecemos afetos que faziam toda a diferença. Isso acontece com as personagens de Uma noite, Markovitch. Ainda que, devido ao contexto histórico, os acontecimentos da narrativa sejam muito graves, o elemento humano do romance é comum a todos nós. É por isso que as personagens cometem erros, alguns terríveis e outros perdoáveis, mas todos devidos à busca confusa de amor e aceitação.

Apesar de infelicidade que permeia a vida das personagens, a leitura é prazerosa e a narrativa é linda. Isso não se deve somente à estrutura do enredo, mas também às escolhas estilísticas da autora. A prosa é marcada por momentos de extrema liricidade e a narrativa, principalmente a descrição das personagens, é construída sobre elementos de realismo mágico: Sônia exala um aroma de laranjas e o bigode de Zeev parece ter uma identidade própria. Embora o romance não seja puramente realista, o retrato das relações humanas criado pela autora não foge da realidade.

Acredito ser impossível não se identificar com algumas das personagens desse romance. Não há heróis ou vilões, todas as personagens são humanizadas. É preciso notar também que a autora não tem medo de explorar temas que podem ser considerados tabus, como doenças psicológicas ou  sexualidade, e o fato dela ser mestra em psicologia torna tudo mais interessante. Uma Noite, Markovitch é um livro extremamente rico em humanidade  e, através de uma investigação psicológica sensível, tem muito a dizer à nossa sociedade atual.

Por Felipe Barros.

 

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4 respostas para “O Romance de Estréia de Uma Psicóloga Israelense – Resenha: “Uma Noite, Markovitch””

  1. Pela sua resenha parece ser uma trama muito interessante e que te prende do inicio ao final. Fiquei bem curiosa pra ler e essas temáticas que envolvem algo histórico também muito me atrai haha
    🙂

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